A Polícia Civil do Piauí, por meio do Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), concluiu o inquérito da terceira fase da Operação Jogo Sujo com o indiciamento de quatro influenciadores digitais. Eles são acusados de integrar uma organização criminosa voltada à promoção de jogos de azar na internet, além de envolvimento em lavagem de dinheiro e indução de consumidores ao erro.
Foram indiciados Maria Vitória, conhecida como DJ Latina Gold; Domingos Silva, também chamado de DJ Loboox e companheiro de Maria Vitória; Nayanna Fonseca e Nathalya Carlos. Segundo a investigação, os quatro atuavam na divulgação de plataformas ilegais de apostas online, especialmente o popular e proibido “jogo do tigrinho”.
As investigações apontam que os influenciadores utilizavam suas redes sociais para estimular seguidores a se cadastrarem nas plataformas ilegais através de links personalizados. Em troca, recebiam comissões, bônus e vantagens fornecidas pelos operadores dos jogos, como viagens internacionais, carros de luxo e pagamentos mensais.
Além da promoção indevida, os conteúdos publicados induziam o público ao erro, ao associar o estilo de vida luxuoso dos investigados a supostos lucros obtidos nas apostas. Não havia, no entanto, comprovação de que esses ganhos eram reais ou provenientes das plataformas divulgadas.
De acordo com o DRCC, o grupo atuava de forma organizada e com divisão clara de funções. A investigação revelou conexões com empresários estrangeiros — em especial chineses — apontados como verdadeiros proprietários das plataformas. Esses empresários contratavam intermediários no Brasil, que por sua vez aliciavam influenciadores para promover os jogos.
Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) identificou movimentações atípicas que ultrapassam R$ 30 milhões. Os indiciados utilizaram contas em fintechs e empresas de fachada para esconder a origem do dinheiro obtido com as apostas ilegais.
Maria Vitória movimentou mais de R$ 14 milhões entre 2023 e 2024, com transações envolvendo fintechs já investigadas, como Cash Pay, Viatech Bank, Kendo e BRGABE. Ela também transferiu valores significativos para si mesma e para Domingos Silva, além de empresas ligadas ao setor de jogos online.
Domingos, por sua vez, movimentou cerca de R$ 335 mil, sendo grande parte oriunda de Maria Vitória. As transações foram consideradas “circulares”, uma estratégia comum para disfarçar a origem ilícita dos valores. Ele não possui veículos nem empresas em seu nome, o que, segundo a Polícia, pode indicar tentativa de ocultação patrimonial.
Nayanna Fonseca supostamente movimentou R$ 9,2 milhões entre 2021 e 2024. Parte desse valor passou por empresas registradas em nome de terceiros, sem o consentimento dessas pessoas. Uma delas, chamada LCFM Assunção Ltda, usava o nome fantasia “Nayanna Fonseca”, o mesmo de outras empresas ligadas à influenciadora.
Ela também supostamente mantinha vínculos financeiros com Mayra Vieira, sua sócia em empresas com o mesmo nome fantasia, o que levantou suspeitas sobre a criação de negócios fictícios com o objetivo de dar aparência de legalidade às movimentações.
Já Nathalya Carlos, sócia da empresa Villa Rosa Makeup, supostamente movimentou quase R$ 5 milhões em apenas seis meses. As entradas e saídas de valores nas contas da influenciadora chamaram atenção pelo equilíbrio artificial entre créditos e débitos — um possível indício de maquiagem financeira. Assim como os demais, ela também recebeu valores de fintechs associadas a jogos ilegais.
Domingos Silva, companheiro de Maria Vitória e conhecido como DJ Loboox, supostamente movimentou cerca de R$ 335 mil durante o período investigado. A maior parte dos valores teria sido repassada diretamente por Maria Vitória. Segundo o relatório do COAF, essas transações apresentavam um padrão de movimentação “circular”, prática usada para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos.
Domingos não possui veículos ou empresas registradas em seu nome, o que, para os investigadores, reforça a suspeita de ocultação patrimonial. Ele teria atuado como um facilitador no esquema, distribuindo os valores recebidos para outros intermediários e empresas ligadas ao setor de apostas ilegais. Entre os destinatários dos repasses estão fintechs como Zam Pago, Wudi Pay, Payment HK Logame Ltda e Pay Nest — todas com histórico de atuação em plataformas de jogos sem autorização legal no Brasil.
Com o encerramento do inquérito, o caso foi encaminhado ao Ministério Público do Piauí, que deverá decidir se apresenta denúncia formal à Justiça. Se o processo for aberto e os acusados condenados, as penas podem ultrapassar 20 anos de prisão, além de multa e perda dos bens adquiridos com recursos ilícitos.

.gif)




